TRANSEUNTIS MUNDI
DERIVA 033 – Terras Incognitas 
 
Hoje, parece inconcebível imaginar a existência de Terras Incognitas em nosso planeta. Uma expressão que os cartógrafos da antiguidade usavam para nomear lugares de que se tinha notícia, ou se relatava entre mitos, mas sem confirmação de sua existência ou detalhe de sua geografia.
Entre os mapas que registraram o descobrimento de um novo mundo nos albores do século XV, por exemplo, o termo “terra incognita” praticamente substituía o desenho no próprio mapa; uma circunstância que paulatinamente foi mudando conforme se exploravam os territórios, se tornavam conhecidos os percursos e se registrava com detalhe nas cartografias.
Entre os postulados do Museu da Energia — espaço concebido para encenar os mais sofisticados frutos da ação humana — surge uma linha de investigação como antídoto: o Patrimônio como Miragem. Isto é, preservar nessa figura performativa o mistério que todo lugar em constante transformação guarda, fruto das errâncias do olhar.
Em sintonia com as buscas do Transeuntis Mundi, que em seus percursos construiu um legado biológico e cultural — patrimônio comum a todos os humanos desde a primeira pegada nas planícies africanas. Derivas feitas de tempo e espaço, levando o Transeuntis Mundi, entre outros percursos, a colonizar o Atlas do novo mundo – a nossa América; Um território geográfico e conceitual quase inteiramente vasculhado e registrado em detalhe em múltiplos mapas, mas que, no entanto, ainda conserva a condição incerta de uma terra incognita.
Uma circunstância singular se torna especialmente inquietante quando consideramos a divisão, grande parte ao acaso, realizada pelos reinos de Portugal e Espanha sob o arbítrio do papado, que afastou o Brasil do restante da América Latina, instaurou uma fronteira que até hoje continua gerando distâncias – não só pelos idiomas, costumes, climas e altitudes. Uma margem que não depende das fronteiras impostas pelas selvas, pois em todos os lugares onde esses dois grupos se encontram, o portunhol se converte na língua franca de comunicação.
A Deriva 033 aproxima essa distância luso-hispânica das Américas: trata dos 33 territórios, países e ilhas que formam o que geograficamente demarca a América Latina – esse grupo de ascendência européia, indígena e negra – denominado Terras Incognitas nas cartografias européias do Século XV, produto da grande expansão marítima em direção aos continentes desconhecidos, até então habitados por “dragões”. 
Foi pela madeira, pela terra e pelo fogo que deixamos de ser incógnitos na cartografia e ganhamos nome: Terra Brasilis, e então “Brasil” – o país da árvore vermelha – ybirapitanga no Tupi Guarani nativo do centro de São Paulo, onde essa exposição acontece, 500 anos depois do princípio da colonização.
Além de desconhecer-nos, nós, brasileiros e latino-americanos, também “o Brazil não conhece o Brasil, o Brazil nunca foi ao Brasil”, já cantado no verso imortal de “Querelas do Brasil”, de Maurício Tapajós e Aldir Blanc. Falemos das terras incógnitas dos povos brasileiros, das culturas brasileiras – do indígena, negro, nortista, nordestino, amazônico, fronteriço, agreste, mestiço. O Brasil ainda tem muitos territórios por descobrir, por dar voz, por colocar no mapa de um país-continente, gigante, plural e ainda incógnito – ecoando os 98 anos da Antropofagia de Andrade.
As tecnologias do metaverso, com sua poderosa capacidade de imersão, abrem um espaço de interseção que permite que o participante possa se reconhecer como um Transeuntis Mundi em deriva pela América Latina. Um feito supremo que se dá pela via inesperada de tornar-se partícipe de uma viagem: uma deriva por histórias mínimas em Fortaleza no Brasil, em Coconuco, na Colômbia, em Lima, no Peru, entre outras; pela cotidianidade dos outros, em outros territórios, que nos desperta para a consciência de que essa alteridade também nos pertence — vista, enfim, pelo olhar do outro. De um outro brasileiro e latino-americano.
 
Borges & Vélez
Janeiro de 2026
São Paulo